Hoje em dia estamos a reviver uma guerra contra o novo e incompreendido. O vilão da vez parece ser o telemóvel.
Durante minha adolescência e juventude o vilão, pasmem, já foi o computador. Os professores chegavam a proibir que os trabalhos fossem impressos e nos obrigavam a fazê-los manuscritos. Outra prática comum era a de coibir uso de internet para pesquisa, uma vez que as fontes fiáveis eram as enciclopédias e livros que existiam nas bibliotecas.
Mas o que paira, na minha opinião pessoal, é o erro na decisão pela exclusão ao invés de procurarem meios de incluir o vilão no processo educacional como outrora foi feito com os computadores, pois fica a impressão de que estamos a nadar contra a maré com essa onda global de exclusão dos eletrônicos da escola.
Claro que existem estudos feitos por pesquisadores e instituições sérias que apontam para a dispersão da atenção e o incremento no vício no uso por parte das crianças e adolescentes, mas o que me pergunto é: Será que conduzir no sentido do uso correto não seria uma solução melhor do que a exclusão?
Prós e Contras
Por um lado, o celular possibilita estreitar vínculos entre amigos e familiares, incentiva a pesquisa e a curiosidade, facilitando o acesso e a democratização da informação.
Por outro, existem riscos no uso exagerado ou desorientado que vão desde a exposição a conteúdos inapropriados até o desenvolvimento de sintomas como insônia e ansiedade.
A posição da UNESCO
A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), no seu relatório de 2023 sobre a tecnologia na educação defende a limitação do uso de telemóveis nas escolas.
São apontados dois motivos principais para esta posição:
A proteção das crianças contra episódios de cyberbullying porque os telemóveis podem ser usados para intimidar ou assediar outros alunos;
As perturbações na sala de aula, uma vez que podem ser uma distração, prejudicando a concentração e a aprendizagem
A UNESCO recomenda que a utilização de telemóveis nas escolas seja exclusivamente limitada às atividades curriculares. Quando se perceba que esta integração não beneficia a aprendizagem ou perturbe o funcionamento das aulas, deveria ser proibida.
Há Alternativas?
A solução passaria por um estudo multidisciplinar sobre a melhor forma de integrar as coisas, pelo desenvolvimento de aplicações que permitam o monitoramento e o controle por parte do corpo docente em relação ao uso dos dispositivos em sala de aula e é claro que, uma vez adicionados ao contexto, seja também equacionado a possibilidade de acesso a todos, uma vez que se trata de dispositivos caros e muitos poderiam ter dificuldade de aquisição, tal e qual ainda acontece com os computadores pessoais hoje.
Algumas medidas imediatas necessárias:
Desenvolvimento de aplicações de controle que poderiam ser instaladas nos dispositivos para monitoramento durante o período de aula, de forma que só pudessem aceder a conteúdos pré-definidos pelo corpo docente para cada disciplina, bem com de possui mecanismos de interação durante as aulas;
Treinar o corpo docente em relação ao uso do telemóvel em sala de aula. Isso passaria por softwares que permitissem a interação durante o conteúdo como quizzes, testes de aprendizado pós aula, imagens ilustrativas, sites permitidos durante a explanação do conteúdo... enfim, as possibilidades são muitas;
Dialogar com as famílias dos estudantes e com eles próprios sobre essa questão, principalmente no tocante às regras de punição aos desvios (como por exemplo o que fazer com quem desconectar do WiFi escolar de conteúdo controlado);
Estudos para definir boas práticas para permitir o uso do aparelho na escola;
Avaliar melhor as consequências da proibição do uso dos telemóveis.
Entendo que esta é uma questão complexa, mas fazer de conta que os eletrônicos estão hoje em nossa lista essencial para o dia a dia em sociedade é querer tapar o sol com uma peneira e achar que vão excluir um dispositivo essencial ao dia a dia de todos com apenas uma lei de proibição. E como sempre a sociedade acaba por tentar excluir aquilo que não consegue perceber bem ao invés de tentar de alguma maneira anexá-lo a processo. E olha que essa questão dos telemóveis já deveria ter sido superada e estarmos a discutir o uso de Inteligência Artificial no dia a dia das escolas... como sempre a sociedade está sempre um passo a trás na solução dos problemas.
