Da oportunidade perdida com Star Wars à criação de Eternia: os bastidores, as influências de Conan e as histórias pouco conhecidas por trás do nascimento de He-Man.
Para muita gente da minha geração, He-Man nunca foi apenas mais um personagem de desenho animado. Ele era o homem mais poderoso do universo, o herói que erguia a espada, invocava os poderes de Grayskull e transformava qualquer sala de estar num campo de batalha pela sobrevivência de Eternia. Curiosamente, todo esse impacto cultural não se traduziu da mesma forma no cinema: a adaptação parece ter sido um fracasso em boa parte do mundo, embora no Brasil tenha conquistado uma relação muito mais duradoura com o público. Agora, com a força das plataformas de streaming e o interesse renovado pela franquia, tudo indica que essa história poderá ser diferente. E talvez seja o momento ideal para conhecer os bastidores de Mestres do Universo, uma trajetória quase tão fascinante quanto as aventuras que víamos na televisão — e que começa com uma decisão que a Mattel provavelmente gostaria de apagar de sua história.
Ainda assim, confesso que alguns aspectos do roteiro me incomodaram, principalmente por se afastarem da história que eu esperava ver no cinema. Para quem cresceu com o desenho, os brinquedos e toda a mitologia de Eternia, certas escolhas parecem deixar de lado elementos essenciais da identidade de He-Man. Talvez funcionem para apresentar a franquia a um novo público, mas, como fã, fica aquela sensação de que parte da essência poderia ter sido preservada com mais cuidado.
Em 1976(por acaso o ano em que nasci), antes de Star Wars chegar aos cinemas, a Mattel teve a oportunidade de produzir os brinquedos relacionados ao filme de George Lucas. O então presidente da empresa, Ray Wagner, não aceitou o projeto. Os direitos acabaram nas mãos da Kenner, uma empresa muito menor, que transformou os personagens de Star Wars numa das linhas de brinquedos mais bem-sucedidas da história. A Mattel, que já dominava o mercado de bonecas com Barbie e possuía marcas fortes como Hot Wheels, assistiu de fora enquanto Luke Skywalker, Darth Vader, Han Solo e os demais personagens conquistavam os quartos das crianças.
É fácil olhar para essa decisão hoje e chamá-la de uma grande mancada. Na época, porém, licenciar personagens de um filme ainda parecia uma aposta arriscada. Ninguém sabia que Star Wars se tornaria o fenómeno cultural que conhecemos. Mesmo assim, o sucesso dos brinquedos da Kenner deixou uma lição evidente: a Mattel precisava criar uma linha de figuras de ação capaz de competir naquele novo mercado.
E foi dessa busca que começou a nascer Masters of the Universe.
Antes de He-Man existir, havia apenas uma ideia de poder
A criação de He-Man não pode ser atribuída de maneira simples a uma única pessoa. Diferentes profissionais da Mattel participaram do processo, e durante décadas houve discussões sobre quem deveria receber o maior reconhecimento.
Roger Sweet, designer do departamento de desenvolvimento preliminar da Mattel, defendia que uma figura precisava chamar a atenção imediatamente. Ela deveria parecer poderosa mesmo vista de longe, numa prateleira cheia de concorrentes. Para demonstrar sua ideia, Sweet utilizou o corpo de uma figura da linha Big Jim, aumentou dramaticamente sua musculatura com materiais de modelagem e criou três versões do mesmo guerreiro.
Esses protótipos ficaram conhecidos como o “He-Man Trio”. Havia uma versão militar, uma versão espacial e uma versão bárbara. Foi justamente o guerreiro bárbaro, com músculos exagerados e uma arma nas mãos, que acabou indicando o caminho da nova coleção. Anos mais tarde, essas três ideias seriam homenageadas pela Mattel no personagem Vykron.
Ao mesmo tempo, o artista e designer Mark Taylor já produzia desenhos de guerreiros, monstros, castelos e criaturas fantásticas. Entre seus conceitos anteriores estava um personagem chamado Torak, um guerreiro de aparência primitiva que apresentava vários elementos visuais posteriormente associados a He-Man. Taylor teve uma contribuição fundamental na construção estética de Eternia, participando do desenvolvimento de personagens e lugares que se tornariam símbolos da franquia, como Skeletor e o Castelo de Grayskull.
Por isso, talvez seja mais justo dizer que Mestres do Universo nasceu de um trabalho coletivo. Roger Sweet ajudou a transformar a ideia num produto que pudesse ser apresentado aos executivos. Mark Taylor ofereceu boa parte da linguagem visual e do imaginário fantástico. Outros artistas, escritores, escultores e profissionais da Mattel ampliaram o conceito até ele deixar de ser apenas um boneco musculoso e se tornar um universo inteiro.
Afinal, He-Man era originalmente Conan?
Essa é provavelmente a história mais repetida sobre a origem de He-Man.

Segundo a versão popular, a Mattel estaria preparando uma linha de brinquedos baseada no filme Conan, o Bárbaro, protagonizado por Arnold Schwarzenegger. Depois de assistir ao filme e perceber a quantidade de violência, nudez e conteúdo adulto, a empresa teria decidido transformar o boneco de Conan num herói infantil. Bastaria mudar alguns elementos, pintar o cabelo de loiro e dar ao personagem o nome de He-Man.
É uma história fascinante. Também é simples, fácil de repetir e parece explicar imediatamente a semelhança entre os dois personagens.
O problema é que os documentos conhecidos não sustentam essa versão dessa maneira.
A Mattel realmente negociou com os proprietários de Conan e, em 31 de julho de 1981, assinou um contrato que lhe concedia direitos para produzir determinadas figuras baseadas no filme. Portanto, a ligação comercial entre a Mattel e Conan não é uma invenção dos fãs. Ela existiu e foi reconhecida nos documentos de um processo judicial movido posteriormente contra a empresa.
Entretanto, protótipos, desenhos e conceitos que levaram a Masters of the Universe já estavam sendo desenvolvidos antes do lançamento do filme de Conan e antes de He-Man chegar às lojas, em 1982. A existência desses trabalhos anteriores foi uma parte importante da defesa da Mattel quando a Conan Properties acusou a empresa de copiar seu personagem.
Em 1989, o tribunal concedeu à Mattel uma decisão favorável nas acusações de violação de direitos autorais, marcas, concorrência desleal e diluição de marca. Algumas disputas contratuais e acusações de fraude continuaram naquele estágio, o que torna incorreto resumir o caso dizendo apenas que “a Justiça provou que não havia nenhuma relação”. O que a decisão demonstrou foi que não havia fundamento suficiente para tratar He-Man como uma cópia juridicamente ilícita de Conan.
Isso não significa que Conan não tenha exercido nenhuma influência.
O universo visual de He-Man pertence claramente à tradição da fantasia de espada e feitiçaria. Roger Sweet reconheceu a importância das pinturas de Frank Frazetta, artista cuja obra ficou profundamente associada às edições e representações de Conan. Guerreiros musculosos, paisagens primitivas, monstros, espadas e fortalezas sombrias já faziam parte desse imaginário muito antes de He-Man.
Portanto, a conclusão mais honesta é esta: He-Man não nasceu simplesmente como um boneco de Conan que precisou ser suavizado para crianças, mas foi criado dentro de um ambiente cultural fortemente influenciado pela fantasia bárbara da época — incluindo a arte associada a Conan.
É uma diferença pequena na forma de contar, mas enorme quando queremos respeitar a história.
Um universo criado primeiro para vender brinquedos
Outra curiosidade que muita gente mais nova desconhece é que He-Man não nasceu no desenho animado.
A linha original de brinquedos de Masters of the Universe foi lançada em 1982. A primeira coleção já apresentava personagens como He-Man, Skeletor, Teela, Man-At-Arms, Beast Man, Mer-Man, Stratos e Zodac, além de Battle Cat e outros elementos que ajudavam a criança a imaginar aquele mundo.
Como ainda não existia uma série de televisão explicando quem eram aqueles personagens, os bonecos vinham acompanhados de pequenas histórias em quadrinhos, os famosos minicómics. Foi ali que muitos dos primeiros elementos de Eternia começaram a aparecer.
Curiosamente, o He-Man dessas histórias iniciais era diferente daquele que ficaria mundialmente conhecido. Ele não era necessariamente o príncipe Adam vivendo secretamente no palácio do rei Randor. Nas primeiras versões, era apresentado como um guerreiro vindo de uma tribo, que abandonava seu povo para defender o misterioso Castelo de Grayskull. A mitologia ainda estava sendo construída, e nem todas as histórias concordavam entre si.
Essa falta de uma continuidade rígida era parte da magia. Cada criança podia preencher as lacunas com a própria imaginação. He-Man podia enfrentar Skeletor numa floresta pré-histórica, dentro de uma nave espacial ou diante de um castelo mágico. Eternia misturava bárbaros, robôs, feiticeiros, monstros e tecnologia futurista sem precisar pedir desculpas pela mistura.
Era exatamente isso que diferenciava a coleção.
Enquanto os bonecos de Star Wars reproduziam personagens e situações que o público já tinha visto no cinema, Masters of the Universe entregava peças de um mundo que a própria criança ajudava a construir.
A Filmation transformou bonecos em personagens
Em 1983, a Filmation lançou o desenho He-Man and the Masters of the Universe. A série não deu origem aos brinquedos; aconteceu o contrário. O desenho foi produzido para ampliar a história e o alcance de uma linha que já estava nas lojas. A própria Mattel descreve a animação como um dos primeiros grandes casos de uma série criada para apoiar e expandir uma marca existente de figuras de ação.

Foi a animação que consolidou vários elementos que hoje parecem inseparáveis de He-Man.
O herói passou a ser definitivamente o príncipe Adam, filho do rei Randor e da rainha Marlena. Ao erguer sua espada e declarar que possuía a força, Adam transformava-se em He-Man. O medroso tigre Pacato tornava-se o poderoso Gato Guerreiro. A Feiticeira protegia o Castelo de Grayskull, enquanto Skeletor tentava conquistar seus segredos e dominar Eternia.
Essa transformação resolveu um problema narrativo importante: He-Man deixou de ser apenas um guerreiro extremamente forte e ganhou uma identidade secreta. Adam podia ser jovem, inseguro e até aparentemente irresponsável. He-Man representava aquilo que ele se tornava quando aceitava sua responsabilidade.
A Filmation também precisava trabalhar dentro das regras da televisão infantil daquele período. He-Man empunhava uma espada, mas raramente a utilizava para ferir diretamente seus inimigos. Os combates eram menos violentos do que o visual dos brinquedos sugeria. No final dos episódios, os personagens normalmente apareciam para transmitir uma lição sobre honestidade, responsabilidade, amizade ou segurança.
Pode parecer ingénuo hoje, mas isso ajudou a transformar um universo de guerreiros assustadores num programa que os pais permitiam que as crianças assistissem.
A genialidade estava também nas limitações
Os bonecos originais de Mestres do Universo tinham corpos robustos, relativamente pouca articulação e muitas peças reutilizadas. Vários personagens compartilhavam braços, pernas, torsos e outros componentes. Mudavam as cores, as cabeças, as armaduras e os acessórios.
Aquilo que poderia ser visto apenas como economia de produção acabou dando unidade visual à coleção.
Todos pareciam pertencer ao mesmo mundo. Até os personagens mais estranhos tinham silhuetas facilmente reconhecíveis. Um homem com cabeça de caveira, um guerreiro com um braço mecânico, uma criatura com olhos giratórios ou um sujeito que esticava o pescoço podiam dividir a mesma prateleira sem parecer que vinham de franquias diferentes.
Além disso, muitos bonecos possuíam algum tipo de função especial. Alguns golpeavam ao girar a cintura. Outros tinham mandíbulas móveis, partes extensíveis, mecanismos de batalha ou características inesperadas. O conceito de cada personagem precisava ser entendido rapidamente por uma criança diante da embalagem.
Trap Jaw tinha uma mandíbula metálica e armas intercambiáveis. Tri-Klops possuía um visor giratório. Ram Man era feito para atacar com a cabeça. Mekaneck esticava o pescoço. Essas ideias podiam parecer exageradas, mas eram perfeitas para o mundo dos brinquedos.
Do grande erro nasceu uma identidade própria
É tentador imaginar como seria a história da Mattel se a empresa tivesse aceitado produzir os brinquedos de Star Wars. Talvez tivesse faturado milhões e dominado ainda mais o mercado. Talvez, satisfeita com o sucesso da licença, nunca tivesse sentido a mesma necessidade de criar seu próprio guerreiro fantástico.
Nesse sentido, a recusa que parece uma das maiores mancadas da indústria dos brinquedos também ajudou, indiretamente, a abrir espaço para o nascimento de Mestres do Universo.
A Mattel perdeu a oportunidade de fabricar Luke Skywalker e Darth Vader, mas acabou criando He-Man, Skeletor, Teela, Man-At-Arms, She-Ra e um mundo que continua despertando o interesse de fãs e colecionadores mais de quatro décadas depois. A linha original estreou em 1982 e permaneceu ativa até 1988, sendo posteriormente retomada em diferentes coleções, animações e interpretações.
E talvez esse seja o detalhe mais interessante de toda essa história.
He-Man nasceu de uma necessidade comercial. Surgiu porque uma empresa precisava competir no mercado de figuras de ação e vender brinquedos. Mas o personagem ultrapassou completamente essa origem. Para quem cresceu assistindo ao desenho, colecionando os bonecos ou improvisando um Castelo de Grayskull com caixas e móveis da casa, Eternia nunca foi apenas uma estratégia de marketing.
Era um lugar onde fantasia e ficção científica podiam existir juntas. Onde uma espada mágica enfrentava robôs, veículos futuristas e monstros. Onde o herói mais forte do universo não usava sua força apenas para dominar os outros, mas para proteger quem precisava.
A verdadeira história da criação de He-Man é mais complexa do que a velha frase “ele era Conan e mudaram o boneco porque o filme era violento”. Conan faz parte do contexto, assim como Frank Frazetta, os protótipos de Roger Sweet, os desenhos de Mark Taylor, o sucesso de Star Wars, o trabalho da Filmation e as decisões de dezenas de profissionais.
Talvez seja justamente essa mistura de influências, erros empresariais, talento artístico e imaginação infantil que tenha dado tanta força a Mestres do Universo.
Pelos poderes de Grayskull, uma oportunidade perdida acabou ajudando a criar uma lenda.