Em 2021, tive a honra de participar de um projeto desafiador que fazia parte da tese de doutoramento do meu amigo Luís Felipe Coimbra. Naquela altura, tive contato com o conceito de uma jornada aplicada à educação e recebi a missão de transformar a teoria numa aplicação.
Confesso que, no início, não foi fácil, pois aquilo que era intuitivo para Luís Felipe representava, para mim, um mundo completamente novo. Como precisava compreender a teoria científica e educacional que daria sustentação à aplicação, voltei a ser estudante. Afinal, de nada valeriam as minhas habilidades em tecnologia se eu não conseguisse dar vida à tese científica que estava diante de mim.
Depois de compreender os objetivos e as possibilidades, fiquei fascinado com as suas potenciais aplicações. Naquela época, ainda não tínhamos todos os recursos de inteligência artificial de que dispomos hoje. Desenvolver um protótipo não era tão fácil nem tão rápido quanto seria atualmente. Ainda assim, o desafio era estimulante e, como nunca me intimidei diante de dificuldades, fui à luta.
Foi assim que conseguimos chegar ao projeto Heroic Journeys.
Este artigo ficaria demasiado extenso se eu escrevesse tudo de uma só vez. Por isso, decidi dividi-lo em duas partes. Nesta primeira, abordarei um pouco da teoria das jornadas heroicas. Na segunda parte, apresentarei as ferramentas desenvolvidas, as tecnologias disponíveis e um pouco da experiência de criar algo nesse sentido.
Grande parte dos cursos disponíveis em plataformas de aprendizagem segue uma estrutura bastante conhecida: o aluno assiste a uma aula, lê um conteúdo, responde a algumas perguntas e avança para o módulo seguinte.
Esse formato pode funcionar bem para transmitir informação, mas nem sempre é suficiente para manter o interesse ao longo de cursos mais extensos. Depois das primeiras aulas, a experiência pode tornar-se repetitiva, fazendo com que o aluno perca a sensação de progresso, propósito e descoberta.
Segundo o Censo da Educação Superior 2024, do Inep, a taxa anual de evasão no ensino superior brasileiro foi de 24,1% na modalidade EAD entre 2023 e 2024. No ensino presencial, a taxa foi de 9,5% no mesmo período. Isso significa que, proporcionalmente, a evasão anual no EAD foi aproximadamente 2,5 vezes maior do que nos cursos presenciais.

A comparação histórica também mostra que essa diferença não é pontual. Entre 2010 e 2024, a evasão anual do EAD permaneceu quase sempre entre aproximadamente 16% e 24%, enquanto a modalidade presencial ficou, em geral, perto de 10% a 12%.
As jornadas heroicas surgem como uma forma de acrescentar uma camada narrativa e lúdica a esses cursos, transformando uma sequência tradicional de aulas numa experiência com missões, desafios, etapas e conquistas.
O mais importante é que essa transformação não exige necessariamente alterar todo o conteúdo existente. A jornada pode funcionar como uma camada adicional dentro do LMS, reorganizando e contextualizando aquilo que já existe.
O que é uma jornada heroica aplicada à educação?
Uma jornada heroica é uma estrutura de progressão inspirada nas narrativas em que uma personagem parte de uma situação inicial, enfrenta desafios, desenvolve novas capacidades e regressa transformada pela experiência.
Num ambiente educacional, o protagonista dessa história é o próprio aluno.
Em vez de simplesmente “concluir o módulo 1”, ele pode iniciar uma missão. Em vez de apenas responder a um questionário, pode enfrentar um desafio de verificação de conhecimentos. Ao concluir uma etapa, pode desbloquear uma nova região, receber um emblema ou conquistar pontos de experiência.
O conteúdo pedagógico continua a ser o elemento central. A diferença está na forma como ele é apresentado, conectado e percebido.
Uma aula sobre comunicação, por exemplo, pode tornar-se uma missão para resolver um conflito entre equipas. Um curso de astronomia pode ser apresentado como uma expedição espacial. Uma formação corporativa de segurança digital pode assumir a forma de uma investigação em que o participante precisa identificar ameaças e proteger uma organização.
A jornada oferece contexto ao conteúdo.
Uma camada lúdica sobre cursos que já existem
Uma das principais vantagens desse modelo é a possibilidade de trabalhar sobre cursos comuns, inclusive aqueles que já estão publicados num LMS.
A camada lúdica pode ser adicionada sem substituir vídeos, textos, questionários ou materiais existentes. O sistema passa apenas a relacionar esses recursos com uma estrutura de progressão narrativa.
Um curso tradicional pode conter:
Módulos;
Aulas em vídeo;
Textos;
Documentos;
Questionários;
Atividades práticas;
Certificados.
Ao receber uma camada de jornada heroica, os mesmos elementos podem ser apresentados como:
Estágios de uma aventura;
Territórios a explorar;
Missões principais;
Missões secundárias;
Desafios de conhecimento;
Artefactos ou recursos conquistados;
Marcos de evolução;
Recompensas e reconhecimentos.
O vídeo continua a ser um vídeo. O questionário continua a avaliar o conhecimento. No entanto, para o aluno, cada ação passa a fazer parte de um percurso maior.
Essa abordagem reduz o custo de implementação porque evita que instituições e professores tenham de reconstruir os cursos do zero.
Do currículo à narrativa
Para transformar um curso numa jornada, o primeiro passo é identificar o objetivo final da formação.
Esse objetivo representa a transformação que se espera do aluno. Pode ser adquirir uma competência profissional, compreender um tema científico, dominar uma ferramenta ou desenvolver uma nova forma de resolver problemas.
Depois disso, o conteúdo pode ser dividido em atos ou etapas.
O chamado para a jornada
A primeira etapa apresenta o contexto, o desafio e o objetivo geral.
Em vez de começar diretamente com uma lista de aulas, o aluno recebe uma introdução que explica por que aquele conhecimento é importante e qual será a sua missão.
Num curso de sustentabilidade, por exemplo, o participante pode ser convidado a ajudar uma cidade fictícia a reduzir o desperdício e melhorar o uso dos seus recursos.
A preparação
Nesta fase, o aluno aprende os conceitos fundamentais e recebe as ferramentas necessárias para avançar.
As aulas introdutórias podem ser apresentadas como preparação, treino ou recolha de informações.
Os desafios
Os conteúdos intermédios tornam-se missões progressivamente mais complexas.
O aluno começa a aplicar aquilo que aprendeu, resolver problemas, tomar decisões e demonstrar domínio sobre o tema.
O desafio principal
A avaliação final pode assumir o papel de uma missão decisiva.
Ela pode combinar perguntas, atividades práticas, projetos, estudos de caso ou simulações.
O retorno e a transformação
Ao concluir o curso, o aluno visualiza aquilo que conquistou e como evoluiu ao longo da jornada.
O certificado deixa de ser apenas um documento final e passa a representar o encerramento de um percurso.
Gamificação não é apenas distribuir pontos
Quando se fala em ludificação, é comum pensar imediatamente em pontos, rankings e medalhas. Esses elementos podem ser úteis, mas não são suficientes para criar uma experiência realmente envolvente.
Uma jornada heroica precisa de propósito.
Os pontos devem representar esforço ou evolução. Os emblemas devem estar associados a competências ou conquistas relevantes. As missões precisam de estar conectadas aos objetivos pedagógicos.
Caso contrário, a gamificação torna-se apenas decorativa.
Uma boa camada lúdica pode combinar diferentes mecanismos:
Progressão visual;
Desbloqueio de etapas;
Missões obrigatórias e opcionais;
Desafios individuais ou em grupo;
Recompensas por consistência;
Objetos colecionáveis;
Personagens orientadoras;
Narrativa adaptada ao tema;
Feedback imediato;
Reconhecimento de competências.
Esses recursos devem apoiar a aprendizagem, e não competir com ela.
O aluno como protagonista

Num curso tradicional, o professor ou o conteúdo costuma ocupar o centro da experiência. Numa jornada heroica, o aluno passa a ser apresentado como protagonista.
Isso muda a forma como as mensagens são construídas.
Em vez de dizer “assista à próxima aula”, o sistema pode indicar que uma nova missão está disponível.
Em vez de apenas mostrar que o aluno acertou sete de dez perguntas, a plataforma pode explicar quais competências ele demonstrou e quais ainda precisa desenvolver.
A narrativa ajuda a estabelecer uma relação mais pessoal com o percurso. O aluno compreende onde está, o que já superou e qual é o próximo objetivo.
Essa sensação de orientação é especialmente importante em cursos online, nos quais a ausência de acompanhamento presencial pode aumentar o abandono.
Personagens orientadoras e mentores virtuais
As jornadas também podem incluir personagens responsáveis por orientar o aluno.
Essas personagens não precisam de substituir o professor. Elas podem atuar como guias da experiência, apresentando desafios, explicando objetivos e oferecendo feedback.
Um mentor virtual pode aparecer no início de cada etapa para contextualizar os conteúdos. Também pode recomendar a revisão de uma aula, celebrar uma conquista ou sugerir uma missão complementar.
Com o apoio de inteligência artificial, esse acompanhamento pode tornar-se mais dinâmico.
O sistema pode adaptar mensagens de acordo com o progresso do aluno, identificar dificuldades recorrentes e sugerir caminhos alternativos. A IA pode ajudar a transformar conteúdos existentes em missões, criar perguntas de revisão e personalizar partes da narrativa.
No entanto, a inteligência artificial deve apoiar o desenho pedagógico, e não substituir a validação humana. Professores e especialistas continuam responsáveis pela qualidade, precisão e adequação dos conteúdos.
Diferentes caminhos dentro do mesmo curso

Uma jornada não precisa ser totalmente linear.
Cursos mais flexíveis podem oferecer missões secundárias, conteúdos opcionais e diferentes caminhos de progressão.
Um aluno que já domina os conceitos básicos pode avançar para desafios mais complexos. Outro pode receber atividades adicionais de preparação.
Esse modelo permite respeitar diferentes ritmos de aprendizagem sem criar cursos completamente separados.
No LMS, cada decisão pode estar relacionada a regras de acesso, pré-requisitos, resultados de questionários ou atividades concluídas.
Por exemplo:
um bom desempenho pode desbloquear uma missão avançada;
uma dificuldade identificada pode liberar uma missão de reforço;
a conclusão de um projeto pode abrir uma etapa especial;
a participação em grupo pode conceder uma conquista colaborativa.
Assim, a jornada torna-se também uma ferramenta de personalização.
Aplicações em diferentes tipos de formação
As jornadas heroicas podem ser utilizadas em praticamente qualquer área.
Na educação escolar, podem transformar disciplinas em expedições temáticas, investigações ou desafios de descoberta.
Na formação profissional, podem simular situações reais do mercado de trabalho.

Em cursos corporativos, podem representar problemas enfrentados pela organização, como melhorar processos, atender clientes, cumprir normas ou proteger dados.
Na integração de novos colaboradores, a jornada pode conduzir o participante pela cultura, pelas equipas e pelas ferramentas da empresa.
Em projetos sociais ou culturais, pode incentivar a exploração de territórios, histórias e comunidades.
Mesmo conteúdos considerados mais formais podem beneficiar-se dessa abordagem. Um curso de conformidade, por exemplo, pode apresentar casos em que o aluno precisa tomar decisões corretas diante de situações de risco.
Benefícios para o LMS

A adição de uma camada de jornada pode gerar benefícios tanto para os alunos quanto para as instituições.
Para o aluno, a experiência tende a tornar-se mais clara, motivadora e orientada a objetivos.
Para a instituição, a jornada pode ajudar a organizar o conteúdo, aumentar a participação e acompanhar o progresso de forma mais detalhada.
Entre os possíveis benefícios estão:
Maior envolvimento com o curso;
Melhor visualização do progresso;
Incentivo à continuidade;
Valorização de pequenas conquistas;
Contextualização das atividades;
Possibilidade de aprendizagem adaptativa;
Integração entre conteúdos diferentes;
Criação de identidade própria para a formação;
Maior quantidade de dados sobre o percurso do aluno.
Esses resultados, porém, dependem de uma boa implementação. Uma narrativa excessivamente complexa ou uma interface cheia de recompensas pode distrair e tornar a experiência cansativa.
A camada lúdica deve simplificar a progressão e tornar o aprendizado mais significativo.
Como integrar jornadas heroicas tecnicamente
Num LMS, a jornada pode ser implementada como um módulo adicional ligado à estrutura normal dos cursos.
O sistema pode manter o conteúdo original e acrescentar entidades como:
Jornadas;
Atos;
Fases;
Missões;
Objetivos;
Recompensas;
Pontos de esforço;
Emblemas;
Condições de desbloqueio;
Personagens;
Decisões;
Eventos narrativos.
Cada missão pode apontar para um recurso já existente no LMS, como uma aula, um questionário ou uma tarefa.
Ao concluir esse recurso, o LMS comunica o resultado ao sistema de jornada, que atualiza o progresso do aluno, atribui recompensas e verifica se novas etapas devem ser desbloqueadas.
Essa arquitetura permite que a camada de jornada seja relativamente independente. O mesmo curso pode até receber narrativas diferentes para públicos distintos, sem duplicar todo o conteúdo.
O papel dos dados e da análise de progresso
Uma jornada bem estruturada também permite observar a aprendizagem de forma mais detalhada.
Em vez de analisar apenas se o aluno terminou ou não o curso, a plataforma pode identificar:
Em que missão houve maior abandono;
Quais desafios foram mais difíceis;
Quanto tempo foi gasto em cada etapa;
Quais conteúdos opcionais despertaram mais interesse;
Que competências apresentaram maior evolução;
Quais percursos foram escolhidos com mais frequência.

Esses dados ajudam professores e instituições a melhorar continuamente os cursos.
Se muitos alunos ficam bloqueados numa determinada missão, o problema pode estar no conteúdo, na instrução, no nível de dificuldade ou na própria interface.
A jornada deixa de ser apenas um recurso visual e passa a funcionar como uma estrutura para compreender o comportamento de aprendizagem.
Aprender como quem percorre uma história
Cursos não precisam de deixar de ser cursos para se tornarem mais envolventes.
Uma jornada heroica não elimina aulas, avaliações, professores ou objetivos pedagógicos. Ela reorganiza esses elementos dentro de uma experiência que oferece sentido, progressão e identidade.
Ao transformar módulos em etapas, atividades em missões e competências em conquistas, o LMS aproxima a aprendizagem da forma como as pessoas naturalmente compreendem desafios: como percursos compostos por objetivos, obstáculos e transformações.
A tecnologia necessária para isso já existe. Conteúdos podem ser conectados, progressos podem ser acompanhados e narrativas podem ser adaptadas a diferentes públicos.
O verdadeiro desafio está em criar jornadas que não sejam apenas bonitas ou divertidas, mas pedagogicamente relevantes.
Quando bem aplicada, essa camada lúdica pode transformar um curso comum numa experiência em que o aluno não apenas consome conteúdos, mas percebe que está a avançar, superar desafios e construir uma nova versão de si mesmo.

Na próxima postagem, parte 2, vou descrever mais detalhe técnicos e possibilidades de tornar isso real e palpável.

