O edifício foi projetado para reunir 800 apartamentos e espaço de escritórios para cerca de 4.000 trabalhadores.
A velocidade da construção chamou atenção internacional e tornou-se um dos exemplos mais conhecidos do potencial da construção modular em grande escala.
Mas existe um detalhe importante.
O prédio não foi literalmente produzido do zero em 19 dias.
Antes da montagem no terreno, a empresa passou cerca de quatro meses e meio fabricando 2.736 módulos que seriam utilizados na estrutura.
Ou seja: grande parte do edifício já estava pronta quando a montagem começou.
E talvez seja justamente esse o ponto mais interessante dessa história.
A obra transformou-se numa linha de montagem
Na construção tradicional, grande parte do trabalho acontece diretamente no terreno.
Materiais chegam separadamente, diferentes equipas trabalham em momentos distintos, instalações são executadas no local e o processo fica sujeito a fatores como clima, logística, disponibilidade de mão de obra e atrasos entre diferentes etapas.
No modelo utilizado pela empresa chinesa, parte significativa desse processo foi transferida para uma fábrica.
Componentes estruturais e outros elementos foram produzidos antecipadamente, transportados para o local e posteriormente montados.
Na prática, o estaleiro aproxima-se mais de uma linha de montagem.
É uma lógica semelhante à utilizada pela indústria automóvel.
Ninguém imagina construir um carro do início ao fim numa garagem improvisada, levando motor, portas, bancos, vidros, eletrónica e restantes componentes separadamente para depois fabricar tudo no local.
Os automóveis são produzidos através de plataformas industriais, processos padronizados e componentes fabricados em escala.
Na construção civil, porém, ainda fazemos grande parte do processo de forma muito mais artesanal.
E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores oportunidades de transformação do setor.
Construir mais rápido pode ajudar na crise da habitação?
A pergunta é inevitável.
Se é possível montar um edifício de 57 andares em apenas 19 dias, sistemas semelhantes poderiam ajudar países que enfrentam falta de habitação?
Em Portugal, por exemplo, o preço das casas aumentou fortemente ao longo da última década, enquanto a construção de novas habitações não acompanhou suficientemente a procura.
Ao mesmo tempo, o setor enfrenta problemas como falta de mão de obra especializada, aumento dos custos de construção, baixa produtividade e processos de licenciamento demorados.
A construção industrializada não resolve todos esses problemas.
Mas pode atacar alguns deles diretamente.
Produzir componentes em fábrica permite maior controlo sobre materiais, processos e qualidade.
Também reduz parte da dependência das condições existentes no local da obra e permite que diferentes etapas aconteçam simultaneamente.
Enquanto o terreno é preparado, por exemplo, elementos do edifício já podem estar sendo produzidos.
Isso reduz drasticamente o tempo entre o início do projeto e a conclusão da construção.
Não precisamos necessariamente de arranha-céus
O exemplo chinês é impressionante justamente porque envolve uma torre de 57 pisos.
Mas talvez a aplicação mais interessante para Portugal nem sequer esteja nos grandes arranha-céus.
Imagine edifícios de quatro, cinco ou seis pisos destinados a habitação acessível.
Apartamentos T1, T2 e T3 poderiam utilizar componentes estruturais semelhantes, instalações técnicas padronizadas e módulos produzidos industrialmente.
Casas de banho poderiam chegar praticamente prontas.
Partes das cozinhas poderiam ser produzidas previamente.
Instalações elétricas e hidráulicas poderiam ser integradas durante a fabricação.
O edifício continuaria podendo ter diferentes fachadas, dimensões e soluções arquitetónicas.
Industrializar não significa necessariamente produzir cidades constituídas por prédios iguais.
Significa padronizar aquilo que não precisa ser reinventado todas as vezes.
O problema não está apenas na velocidade da obra
Existe, porém, uma limitação importante.
Construir um edifício rapidamente não significa automaticamente produzir habitação barata.
O preço de uma casa não depende apenas do custo da construção.
Existem também o preço do terreno, financiamento, impostos, infraestrutura, projetos, licenciamento e margens comerciais.
Uma construtora pode ser capaz de montar um prédio em algumas semanas.
Mas se o projeto levar anos para conseguir autorização, parte da vantagem desaparece.
Da mesma forma, reduzir o custo da construção não garante que essa redução chegue integralmente ao comprador ou ao arrendatário.
Por isso, a construção industrializada deve ser vista como uma parte da solução e não como uma solução isolada.
Portugal também tem outro problema
Existe ainda uma particularidade importante no mercado português.
Portugal possui um número significativo de habitações vazias ou utilizadas como residências secundárias.
Ou seja, a crise habitacional não acontece apenas porque não existem casas suficientes.
Existe também um problema de localização, disponibilidade e utilização do parque habitacional existente.
Algumas casas estão onde existe pouca procura.
Outras precisam de reabilitação.
Muitas simplesmente não chegam ao mercado de arrendamento ou venda.
Isso significa que qualquer política séria de habitação precisa atuar em diferentes frentes.
Construir mais.
Recuperar imóveis existentes.
Melhorar transportes e acessos.
Aumentar a oferta onde existe maior procura.
Simplificar licenciamentos.
E criar modelos capazes de produzir habitação com custos mais previsíveis.
É exatamente nessa última parte que a construção industrializada pode ter um papel importante.
E se começássemos a fabricar casas?
Talvez a maior lição do edifício chinês não esteja nos 19 dias.
Está no processo que tornou esses 19 dias possíveis.
A empresa não descobriu uma forma mágica de construir mais rápido.
Ela simplesmente transferiu grande parte da construção para um ambiente industrial.
Em vez de construir praticamente tudo no local, produziu antecipadamente componentes que depois foram transportados e montados.
É uma mudança aparentemente simples, mas que altera completamente a lógica do setor.
Imagine fábricas produzindo continuamente componentes destinados à habitação pública, residências universitárias, arrendamento acessível ou projetos privados.
Os municípios poderiam preparar terrenos e infraestrutura.
Empresas poderiam fornecer sistemas construtivos previamente certificados.
Arquitetos continuariam responsáveis por adaptar os edifícios às cidades e aos diferentes projetos.
Mas uma parte considerável do trabalho repetitivo poderia ser industrializada.
Isso permitiria ganhar escala.
Um edifício de 57 andares em 19 dias é mais do que uma curiosidade
O Mini Sky City foi construído há mais de uma década.
Ainda assim, o vídeo continua impressionante porque mostra uma diferença enorme entre aquilo que consideramos normal na construção tradicional e aquilo que pode acontecer quando o processo é industrializado.
Naturalmente, não basta copiar o modelo chinês.
Portugal e a União Europeia possuem normas próprias de segurança, eficiência energética, proteção contra incêndios, resistência sísmica, urbanismo e qualidade arquitetónica.
Tudo isso precisa ser respeitado.
Mas talvez o exemplo de Changsha deva servir menos como modelo para ser copiado e mais como provocação.
Porque a pergunta não precisa ser:
“Conseguimos construir um prédio de 57 andares em 19 dias?”
A pergunta realmente interessante é:
“Quanto do tempo e do custo atual da construção existe porque ainda produzimos edifícios de uma forma que poderia ser industrializada?”
A construção modular não resolverá sozinha a crise da habitação.
Mas diante de um problema em que precisamos aumentar a oferta, reduzir custos e construir mais rapidamente, parece difícil ignorar uma tecnologia capaz de transformar meses ou anos de obra em processos muito mais curtos e previsíveis.
Talvez não seja a solução definitiva para o problema da habitação.
Mas certamente é uma das soluções que deveríamos estar discutindo muito mais.