O Brasil prepara um dos maiores investimentos de sua história em infraestrutura dedicada à inteligência artificial. Um novo supercomputador, estimado em cerca de R$ 1,06 bilhão, será instalado no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), em Macaíba, na Região Metropolitana de Natal, no Rio Grande do Norte.
A máquina deverá ser usada no treinamento e na execução de modelos de inteligência artificial e estará disponível para projetos envolvendo universidades, instituições científicas, órgãos públicos e empresas. O objetivo é aumentar de forma significativa a capacidade computacional disponível dentro do território brasileiro, reduzindo a necessidade de contratar no exterior infraestrutura para projetos que exigem grande poder de processamento.
O projeto faz parte do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), estratégia lançada pelo governo federal em 2024 e que prevê aproximadamente R$ 23 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028. O plano reúne iniciativas de infraestrutura, formação profissional, pesquisa, aplicações de IA no setor público e estímulo ao desenvolvimento tecnológico empresarial.
Uma máquina voltada especialmente para inteligência artificial
A capacidade anunciada para o novo sistema é de aproximadamente 7.200 petaflops em processamento FP16, formato de precisão amplamente utilizado em operações relacionadas à inteligência artificial.
Isso corresponde a cerca de 7,2 quintilhões de operações matemáticas por segundo. Dados divulgados pelo governo e por instituições envolvidas no projeto também apontam que a infraestrutura deverá contar com mais de 50 mil núcleos de processamento.
Para tentar dimensionar essa capacidade, uma comparação apresentada durante a divulgação do projeto estima que, se cada um dos aproximadamente 8 bilhões de habitantes da Terra realizasse uma operação por segundo, seriam necessários cerca de 29 anos para completar o número de operações que a nova infraestrutura poderá realizar em apenas um segundo.
A comparação é apenas ilustrativa, mas ajuda a demonstrar a escala do equipamento.
Existe, no entanto, uma diferença técnica importante quando se comparam supercomputadores. Os 7.200 petaflops anunciados estão associados ao processamento FP16, utilizado principalmente em cargas de IA. Portanto, esse número não deve ser comparado diretamente com resultados de rankings tradicionais de supercomputação baseados em outras precisões numéricas, como FP64.
Segundo o governo, a expectativa é que o sistema fique entre as dez maiores infraestruturas do mundo voltadas ao processamento de inteligência artificial quando entrar em funcionamento. A colocação efetiva, naturalmente, dependerá também da evolução dos sistemas instalados em outros países até lá.
Por que o supercomputador ficará no Rio Grande do Norte?
A escolha de Macaíba envolve mais do que uma decisão de descentralização geográfica.
O Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), responsável pelas especificações técnicas e pelos estudos para implantação da infraestrutura, explica que um sistema dessa dimensão exige condições específicas de fornecimento e custo de energia, infraestrutura elétrica, refrigeração, conectividade, segurança e espaço físico.
O Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo reúne parte dessas condições e está integrado a instituições de pesquisa e inovação da região.
Outro fator considerado é a disponibilidade energética do Nordeste, especialmente de fontes renováveis. Um equipamento dessa escala precisa funcionar continuamente e demanda não apenas grande quantidade de eletricidade, mas uma infraestrutura elétrica e de refrigeração capaz de suportar cargas elevadas de forma estável.
Informações divulgadas sobre o projeto indicam um consumo elétrico estimado em aproximadamente 4 megawatts para a infraestrutura computacional.
Quase R$ 960 milhões já aparecem na seleção pública
Embora o projeto tenha sido anunciado como um investimento de aproximadamente R$ 1,06 bilhão, o processo formal de aquisição traz um número mais específico.
A Fundação de Apoio ao Desenvolvimento da Computação Científica (FACC) publicou em 20 de agosto o Aviso de Seleção Pública nº 27/2026, destinado à contratação de uma solução integrada de processamento computacional de alto desempenho.
O valor previsto no instrumento é de exatamente:
R$ 959.040.959,04.
O próprio LNCC alerta que esse valor não deve ser confundido com os cerca de R$ 1,06 bilhão divulgados para o projeto como um todo, já que os números têm escopos diferentes.
A seleção será realizada pelo critério de Técnica e Preço, e não envolve apenas a entrega física de servidores.
Entre os requisitos do projeto estão também mecanismos de transferência de tecnologia, capacitação de profissionais brasileiros e desenvolvimento de competências nacionais em software e inteligência artificial.
Como o processo competitivo ainda está em andamento, o fornecedor definitivo do supercomputador ainda não pode ser considerado oficialmente escolhido.
O Brasil quer treinar modelos dentro do próprio país
A importância da infraestrutura está diretamente relacionada à transformação ocorrida na inteligência artificial nos últimos anos.
O treinamento de grandes modelos exige milhares de processadores trabalhando simultaneamente durante longos períodos. Atualmente, projetos brasileiros que precisam desse nível de capacidade podem ter que recorrer à infraestrutura de provedores estrangeiros.
Isso cria dependência não apenas tecnológica, mas também econômica e estratégica.
Com uma infraestrutura pública de grande porte no Brasil, universidades, centros de pesquisa, governo e empresas poderão desenvolver projetos que anteriormente dependeriam de capacidade computacional instalada fora do país.
Entre as aplicações previstas estão pesquisas relacionadas a saúde, agricultura, indústria, energia, clima e prevenção de desastres, além do treinamento de modelos brasileiros de inteligência artificial.
Um dos objetivos do PBIA é justamente criar modelos avançados de linguagem treinados com dados brasileiros e em português, procurando representar melhor características linguísticas, culturais e sociais do país.
Não será substituto do Santos Dumont
O novo equipamento também não significa a aposentadoria do atual supercomputador Santos Dumont, instalado no LNCC, em Petrópolis, no Rio de Janeiro.
O próprio laboratório esclareceu que os dois sistemas terão funções complementares.
O Santos Dumont continuará sendo utilizado para computação científica e projetos de pesquisa em diferentes áreas, enquanto a nova infraestrutura instalada em Macaíba ampliará especialmente a capacidade brasileira para aplicações relacionadas à inteligência artificial e computação de alto desempenho.
Também não haverá transferência da sede do LNCC para o Nordeste. O laboratório continuará sediado em Petrópolis e será responsável pela dimensão científica e tecnológica relacionada à implantação do novo sistema.
E haverá outro supercomputador no Rio de Janeiro
O equipamento do Rio Grande do Norte é apenas uma das frentes da estratégia anunciada pelo governo.
Existe um segundo projeto de supercomputação, que será implantado no Rio de Janeiro pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) em parceria com as empresas chinesas Huawei e iFlytek.
Nesse caso, o investimento anunciado é de aproximadamente R$ 1,276 bilhão ao longo de cinco anos, com início das operações previsto para julho de 2027.
A iniciativa prevê, além da infraestrutura computacional, transferência de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, capacitação profissional e criação de uma pilha de software voltada à IA.
Segundo informações oficiais, também está previsto nesse projeto o desenvolvimento de um grande modelo de linguagem nacional e de modelos de inteligência artificial em português. A proposta inclui ainda a capacitação de aproximadamente 3 mil brasileiros em cinco anos.
Portanto, são projetos diferentes: o supercomputador de aproximadamente R$ 1 bilhão em Macaíba é uma infraestrutura nacional adquirida por seleção pública, enquanto o projeto do Rio de Janeiro está ligado à cooperação tecnológica coordenada pela RNP.
Supercomputação é apenas uma parte do plano
O movimento ocorre dentro de uma estratégia muito maior.
O PBIA prevê R$ 23,03 bilhões em investimentos entre 2024 e 2028. De acordo com a versão mais recente do plano, cerca de 25% do montante previsto está associado ao eixo de infraestrutura e desenvolvimento de IA, enquanto outras parcelas são destinadas à formação profissional, serviços públicos, inovação empresarial e governança.
O governo também anunciou iniciativas envolvendo uma chamada Nuvem Brasileira, desenvolvimento nacional de chips e infraestrutura soberana para armazenamento e processamento de dados.
A ideia é construir gradualmente uma cadeia tecnológica que não dependa exclusivamente de fornecedores e datacenters estrangeiros.
Isso não significa que o Brasil passará a produzir sozinho toda a tecnologia usada nesses equipamentos. Supercomputadores modernos dependem de uma cadeia global extremamente complexa, envolvendo processadores, aceleradores, memória, redes de alta velocidade, sistemas de refrigeração, armazenamento e software produzidos por empresas de diversos países.
O objetivo declarado é ampliar a capacidade de operar, desenvolver e controlar aplicações estratégicas dentro do país, além de formar profissionais capazes de trabalhar com essa infraestrutura.
O desafio começa depois da compra
Comprar um supercomputador, porém, é apenas uma das etapas.
Sistemas dessa escala exigem centros de dados adequados, disponibilidade contínua de eletricidade, refrigeração de alto desempenho, redes de altíssima velocidade, armazenamento e equipes especializadas para operação e manutenção.
Também será necessário definir como sua capacidade será distribuída entre universidades, empresas, instituições de pesquisa e órgãos públicos.
Até agora, não foram divulgadas publicamente regras completas sobre acesso, preços ou critérios de utilização da infraestrutura por empresas e demais usuários. Esses detalhes deverão ganhar importância à medida que o projeto se aproximar da operação.
A previsão anunciada é que o novo supercomputador entre em funcionamento em 2027, depois da conclusão da seleção, contratação, preparação da infraestrutura e instalação dos equipamentos.
Se o cronograma for cumprido, o resultado será uma mudança considerável na infraestrutura tecnológica disponível para pesquisadores e desenvolvedores brasileiros.
Mais do que disputar uma posição em rankings internacionais, o principal impacto poderá estar na possibilidade de treinar e executar dentro do Brasil modelos que hoje exigem infraestrutura computacional encontrada principalmente em grandes provedores estrangeiros.
É justamente essa capacidade — computação em grande escala, energia, dados, profissionais especializados e acesso a aceleradores — que se tornou um dos recursos estratégicos da atual corrida mundial pela inteligência artificial.

