Durante décadas, a televisão funcionou de uma maneira bastante simples: alguém produzia o conteúdo, uma emissora o transmitia e o público assistia. O controle remoto permitiu trocar de canal, ajustar o volume e, mais tarde, acessar menus e aplicativos. Ainda assim, a relação continuava essencialmente passiva.
Esse modelo está começando a mudar.
A televisão do futuro não será somente uma tela usada para reproduzir filmes, séries, notícias ou eventos esportivos. Ela deverá compreender perguntas, apresentar informações relacionadas ao que está sendo exibido, adaptar conteúdos ao perfil de cada pessoa e permitir que o público participe da programação em tempo real.
Essa transformação já começou, principalmente com a integração entre televisão conectada, streaming, inteligência artificial e serviços transmitidos pela internet.
A inteligência artificial está chegando à sala de estar

Uma das mudanças mais evidentes está na forma como conversaremos com a televisão.
Os comandos de voz atuais ainda são relativamente simples. Normalmente, pedimos para abrir um aplicativo, aumentar o volume ou procurar determinado filme. A nova geração de assistentes pretende compreender pedidos mais naturais e manter uma conversa com o usuário.
O Gemini para Google TV, por exemplo, já permite fazer perguntas relacionadas ao conteúdo, pedir recomendações com base no humor da família, obter resumos de temporadas anteriores e aprofundar temas com vídeos complementares. Em 2026, o Google também anunciou respostas visuais mais completas, resumos esportivos narrados e a possibilidade de ajustar configurações de imagem e som utilizando frases naturais, como dizer que a tela está escura ou que os diálogos estão difíceis de ouvir.
Em 2026, o Google anunciou novos recursos do Gemini para Google TV, incluindo respostas visuais mais completas, informações esportivas em tempo real, explicações narradas e a possibilidade de ajustar configurações de imagem e som usando frases naturais.
A Samsung também vem apresentando a televisão como uma espécie de companheira inteligente. O sistema Vision AI Companion foi desenvolvido para compreender o que está sendo assistido e oferecer informações relacionadas diretamente na tela. Durante uma partida, por exemplo, o usuário poderá consultar previsões, estatísticas e dados dos jogadores. Em um programa culinário, poderá pedir a receita ou descobrir como substituir determinado ingrediente.
Na prática, a televisão começa a deixar de ser apenas o aparelho que mostra o conteúdo para se tornar uma interface capaz de interpretá-lo.
Cada pessoa poderá assistir a uma versão diferente
Atualmente, as plataformas de streaming já recomendam filmes e séries com base no histórico de visualização. No futuro, essa personalização deverá ir muito além da escolha do próximo programa.
A mesma transmissão poderá ser apresentada de maneiras diferentes para cada espectador. Em uma partida de futebol, alguém poderá preferir uma tela limpa, mostrando apenas o jogo. Outra pessoa poderá ativar estatísticas, mapas de movimentação, informações sobre os atletas e resultados de partidas simultâneas.

O público também poderá escolher o nível de profundidade de uma transmissão. Um espectador iniciante receberia explicações básicas sobre as regras, enquanto alguém mais experiente teria acesso a análises técnicas e dados avançados.
A personalização poderá atingir também o áudio, as legendas, a linguagem utilizada e os recursos de acessibilidade. Padrões como o DVB-I já trabalham para aproximar a televisão linear dos serviços distribuídos pela internet, permitindo organizar canais e conteúdos de diferentes origens em uma única experiência. O sistema também pode utilizar metadados para apresentar recursos adaptados às necessidades de cada usuário.
Assim, duas pessoas sentadas diante da mesma televisão poderão assistir ao mesmo evento, mas encontrar caminhos diferentes para interagir com ele.
Programas poderão responder ao público em tempo real
A interatividade também deverá modificar a forma como os programas são produzidos.
Reality shows, competições, debates, transmissões esportivas e programas jornalísticos poderão incorporar votações instantâneas, perguntas enviadas pelo público, enquetes e decisões capazes de alterar o rumo da programação.
Em vez de acessar uma rede social separadamente, o espectador poderá participar utilizando o próprio controle remoto, a voz ou um celular conectado à televisão.

Padrões de televisão híbrida, como o HbbTV, combinam a transmissão tradicional com serviços entregues pela internet. Isso permite que as emissoras adicionem aplicações interativas, conteúdos sob demanda, guias de programação, publicidade interativa e serviços complementares ao sinal convencional. Em março de 2026, a HbbTV Association publicou a especificação 2.0.5, dando continuidade à evolução desse modelo de televisão híbrida.
Nos Estados Unidos, o padrão ATSC 3.0 também foi projetado sobre uma arquitetura baseada em internet, com suporte a personalização, aplicações interativas, alertas avançados e recepção em diferentes tipos de dispositivos.
Isso significa que a interatividade poderá deixar de ser exclusividade dos aplicativos de streaming e chegar também à televisão aberta.
Comprar produtos sem interromper o programa
Outro caminho provável é o crescimento da televisão comercial interativa.
Imagine assistir a um programa de decoração e selecionar, com o controle remoto, uma luminária exibida no ambiente. Em uma competição culinária, seria possível abrir a lista de ingredientes e comprar os produtos utilizados. Durante uma transmissão esportiva, o uniforme do clube ou o ingresso para a próxima partida poderia ser adquirido sem abandonar a tela.

A publicidade também deverá se tornar mais personalizada. Em vez de todos os espectadores receberem o mesmo anúncio, diferentes versões poderão ser exibidas conforme localização, interesses e contexto da programação. A Roku, por exemplo, considera que a integração entre dados e plataformas deverá ampliar a publicidade personalizada na televisão conectada.
Essa conveniência, entretanto, terá um preço: a televisão poderá se transformar em mais um ambiente de coleta intensa de informações sobre o comportamento do consumidor.
A TV poderá se tornar um espaço de criação
Uma novidade ainda pouco explorada é a transformação da televisão em uma plataforma para criação de conteúdo.
O Google já anunciou recursos que utilizam modelos generativos para criar imagens e vídeos diretamente na TV, além de transformar fotografias pessoais exibidas na tela.
Nos próximos anos, será possível imaginar famílias criando histórias, animações e jogos usando comandos de voz. Uma criança poderá pedir uma aventura protagonizada pelos seus brinquedos. Um grupo de amigos poderá criar um quiz personalizado. Fotografias de uma viagem poderão ser transformadas automaticamente em uma apresentação narrada.
A televisão poderá, portanto, deixar de ser apenas o destino final de conteúdos produzidos por grandes empresas. Ela também será uma ferramenta doméstica de criação.
O celular continuará importante, mas como uma segunda tela
O futuro da televisão não deverá eliminar o smartphone. Pelo contrário: os dois aparelhos tendem a funcionar de maneira cada vez mais integrada.
O celular poderá servir como controle, teclado, câmera, carteira digital ou tela privada. Durante uma partida, a televisão mostraria o jogo, enquanto o smartphone exibiria estatísticas detalhadas. Em um programa de perguntas, cada pessoa responderia individualmente pelo próprio aparelho.
Esse modelo também poderá resolver um problema comum nas experiências interativas: excesso de informações sobre a imagem principal. A televisão continua mostrando o conteúdo principal, enquanto os elementos complementares são enviados para a segunda tela.
O próprio padrão HbbTV prevê a interação com dispositivos complementares, como smartphones e tablets.
Jogos, exercícios e experiências coletivas
À medida que televisores ganham processadores mais avançados e conexão permanente, a diferença entre TV, computador e console de jogos tende a diminuir.
A Roku lançou em 2026 um jogo interativo integrado ao seu conhecido protetor de tela, demonstrando como espaços tradicionalmente passivos da interface podem ser transformados em experiências jogáveis.
No futuro, atividades físicas poderão ser acompanhadas pela câmera do televisor ou por sensores externos, que analisarão movimentos e oferecerão orientações em tempo real. Aulas, visitas virtuais, consultas remotas e eventos poderão ocorrer em ambientes compartilhados na tela.
Transmissões esportivas também poderão oferecer diferentes câmeras, áudio personalizado, ambientes tridimensionais e espaços virtuais nos quais amigos assistem juntos mesmo estando em lugares diferentes.
A experiência deixará de ser simplesmente “assistir ao mesmo conteúdo” e passará a ser “participar do mesmo ambiente”.
Os principais desafios não serão técnicos
Grande parte da tecnologia necessária para essa transformação já existe. O maior desafio será decidir como ela deverá ser utilizada.
Uma televisão que reconhece vozes, analisa hábitos e personaliza anúncios também pode reunir informações muito detalhadas sobre uma família. Por isso, privacidade, consentimento e transparência deverão ser elementos centrais dessa nova experiência.
Outro risco será o excesso de interferência. Nem todo programa precisa de botões, compras, comentários, estatísticas e assistentes conversando o tempo inteiro. Uma boa televisão interativa deverá saber quando ajudar e, principalmente, quando permanecer em silêncio.
Também existe o problema da fragmentação. Fabricantes, emissoras e plataformas possuem sistemas diferentes. Para que a interatividade se torne realmente popular, será necessário criar padrões capazes de funcionar em diversos televisores e regiões.
Aonde vamos chegar?
A televisão provavelmente não desaparecerá. O que desaparecerá será a ideia de que ela serve apenas para exibir um sinal recebido.
Nos próximos anos, a TV deverá assumir vários papéis ao mesmo tempo: cinema doméstico, central de informação, assistente de inteligência artificial, plataforma de jogos, espaço de comunicação, ambiente de compras e painel de controle da casa conectada.
Em um primeiro momento, veremos assistentes melhores, pesquisas por voz, estatísticas em tempo real e recomendações mais precisas. Depois, deverão crescer as experiências de participação, as transmissões personalizadas e a integração com celulares e dispositivos domésticos.
Mais adiante, conteúdos poderão se adaptar enquanto são assistidos. Narrativas poderão mudar conforme as escolhas do público. Programas educativos poderão ajustar a explicação ao nível de conhecimento do espectador. Eventos ao vivo poderão oferecer experiências diferentes para cada pessoa.
A grande mudança será esta: em vez de perguntar apenas “o que está passando na televisão?”, começaremos a perguntar “o que queremos fazer com ela?”.
A TV do futuro continuará contando histórias. A diferença é que, cada vez mais, o público também fará parte delas.

