Mais de 200 economistas, pesquisadores de inteligência artificial e líderes de tecnologia divulgaram a declaração “We Must Act Now” — “Precisamos agir agora”.
A iniciativa foi organizada pelo Stanford Digital Economy Lab, centro da Universidade Stanford que estuda os efeitos das tecnologias digitais sobre a economia e o trabalho. Entre os signatários estão 16 vencedores do Prémio Nobel, o pioneiro da inteligência artificial Yoshua Bengio, economistas como Joseph Stiglitz, Daron Acemoglu e Paul Krugman, além de executivos e profissionais ligados a empresas como Google, OpenAI e Anthropic.
Não se trata, portanto, de um alerta vindo apenas de críticos da tecnologia. Parte das pessoas que assinam o documento participa diretamente da investigação, do financiamento e da construção dos sistemas que estão a provocar essa transformação.
A declaração é curta e cuidadosa. Ela não afirma que existe uma previsão exata sobre o futuro, mas diz que a inteligência artificial pode tornar-se radicalmente mais poderosa durante os próximos dez anos.
Segundo os signatários, isso poderá provocar uma transformação económica maior do que a Revolução Industrial, mas num espaço de tempo muito menor. Entre as possibilidades positivas estão grandes aumentos de produtividade e do padrão de vida. Entre os riscos está o deslocamento de trabalhadores em larga escala.
O pedido central é que economistas, governos e líderes tecnológicos comecem agora a criar incentivos, limites e instituições capazes de orientar a IA para complementar o trabalho humano, em vez de apenas o substituir.
Esse ponto é fundamental.
A discussão sobre inteligência artificial costuma ficar limitada às capacidades das ferramentas: escrever textos, produzir imagens, programar, analisar documentos ou automatizar processos.
Mas a questão real já não é apenas o que a IA consegue fazer.
É o que acontecerá quando empresas conseguirem produzir cada vez mais com equipas cada vez menores. Quem ficará com o aumento da produtividade? Como as pessoas manterão renda e capacidade de consumo? E que poder terão os trabalhadores diante de sistemas controlados por poucas empresas?
Na minha leitura, o alerta não é exagerado. Exagerado seria imaginar que podemos transformar rapidamente a base produtiva da sociedade sem repensar o restante.
A economia atual foi organizada em torno de uma relação simples: as pessoas trabalham, recebem rendimentos e consomem aquilo que as empresas produzem.
Mas essa estrutura começa a ser questionada quando uma parcela crescente da produção pode ser realizada por sistemas automáticos.
Não basta responder que todos precisarão aprender a usar inteligência artificial. A formação será essencial, mas não resolve o problema por completo.
Uma pessoa pode adaptar-se a uma ferramenta. É muito mais difícil adaptar-se continuamente a sistemas que evoluem todos os meses, enquanto as empresas reorganizam funções, eliminam vagas de entrada e concentram o trabalho em grupos menores.
Por isso, não devemos preparar apenas os trabalhadores. Precisamos preparar as instituições.
Educação, tributação, proteção social, legislação laboral e distribuição de renda terão de acompanhar uma realidade em que emprego, produtividade e criação de riqueza talvez deixem de estar ligados da mesma forma.
A inteligência artificial pode melhorar a medicina, a educação, a ciência e a produtividade das pequenas empresas. Ela pode tornar profissionais mais capazes e democratizar conhecimentos antes reservados a grandes organizações.
Mas isso não acontecerá automaticamente.
Se o único incentivo for reduzir custos e aumentar lucros, a IA será utilizada principalmente para diminuir a quantidade de pessoas necessárias. Teremos mais produtividade, mas não necessariamente mais prosperidade partilhada.
A pergunta mais importante, portanto, não é se devemos ser contra ou a favor da inteligência artificial.
A pergunta é outra:
vamos utilizar a IA para ampliar a capacidade humana ou apenas para reduzir o número de humanos de que a economia precisa?
O futuro ainda não está definido. Mas quanto mais demorarmos para discutir essas escolhas, maior será a possibilidade de elas serem feitas apenas pelas empresas que controlam a tecnologia.
Quando os próprios pesquisadores, economistas e líderes do setor dizem que precisamos agir agora, talvez seja prudente levar o aviso a sério.
Não porque eles saibam exatamente o que acontecerá.
Mas porque reconhecem que a transformação pode chegar antes de estarmos preparados para ela.

